Tenho vindo a observar as crianças da família. Os seu hábitos. O seu desenvolvimento. A sua educação. As ideias das escolas que frequentam.
E quanto mais vejo e ouço, mais certezas tenho de que, hoje em dia, a maior parte das crianças tem muito pouco espaço e tempo para se divertirem. Culpa dos pais? Ou da pressão das pessoas à volta? Dos métodos praticados nas escolas?
Exige-se cada vez mais deles, e cada vez mais cedo.
Exige-se que com pouco mais de um ano eles já saibam dizer os nomes de todos os animaizinhos de um pequeno livro e que saiba dizer as cores em inglês.
Que com dois anos saibam pintar na perfeição e contar até mil.
Que com três anos saibam todas as capitais de distrito e que aos quatro já tragam trabalhos de casa.
E tudo isto me dá uma volta muito grande aos miolos. E ao estômago também.
A valorização das capacidades intelectuais das crianças está, na minha opinião, a tornar-se, em muitos casos, numa obcessão e a sobrepôr-se a tudo o resto.
Acredito piamente que com esta mentalidade só estamos a contribuir para o cansaço mental deles.
Tem de haver idades para tudo. Se andam num Jardim de Infância, é para serem infantis nesse jardim. Para cantarem, dançarem, correrem, treparem às árvores, jogarem à bola, saltarem ao elástico, e acima de tudo, saber inventar brincadeiras. Usarem a imaginação, a criatividade. Os míudos de hoje não sabem inventar.
Numa tarde destas últimas férias de Verão, em que quase toda a família passou uns dias no campo em Trás-os-Montes, dizia o meu marido, todo entusiasmado, a uns priminhos de 5 e 6 anos que pareciam estar a apanhar grande seca:
" Vamos fazer uma pista de caricas!!".
E eles ficaram de olhos arregalados a olhar para ele, como se, de repente, o meu marido se tivesse transformado num E.T. e acabado de aterrar ali. "Uma pista de caricas??? Como?Não sabemos!"
"Ora, entao puxem pela cabeça, inventem!"
Sem notar grande entusiasmo da parte deles, o meu marido insistiu: "Então, primeiro vamos procurar caricas no chão daquele caminho, e depois arranjar materiais para fazermos uma pista".
Silêncio.
"Oh não sabemos fazer isso. Nunca vi pistas feitas assim".
Fui eu (de barrigona) e o meu marido, que lhes montámos uma pista de caricas feitas de molas da roupa e pauzinhos. Eles adoraram. Brincaram toda a tarde naquilo.
Compramos ainda uma lixa e umas tintas, e foram eles que nos ajudaram a pintar de azul o baú dos brinquedos do quarto do meu bolachinha. Ah, e ainda os ensinamos a jogar dominó. E a assobiar.
Não é isto tão ou mais importante do que saber a tabuada aos 5 anos? Não deveriam também ensinar estas coisas na escola?
Eu sei que a sociedade exige que eles sejam inteligentes e cada vez mais competitivos.
Mas assusta-me pensar que o meu filho possa vir, também ele, a perder coisas tão belas que a infância tem.
Quero muito que ele cresça solto, que se suje na escola, que transpire quando jogar à bola, que goste de brincar, de imaginar, de inventar.
Tive o cuidado de escolher uma creche com um jardim enooooormeeee e cheio de árvores, e uma horta, e coelhinhos, e campo de futebol. Mais do que preocupar-me com o se as educadoras lá puxam por eles, interessa-me que tenha condições para ele dar umas corridas, para brincar ao ar livre.
Para ser feliz.
4 comentários:
Completamente de acordo!!!
Concordo tanto com o que dizes... Uma prima do meu marido com menos de 3 anos escrevia tudo o que quisesses no computador, no outro dia fomos a casa deles e ela tinha escrito Francisco num papel (tem agora 4 anos!) sem ninguém a ajudar...
Eu acho isto um exagero, principalmente porque penso que quando for para a escola vai ser desmotivador!
Eu lembro-me do filho de uma amiga da minha mãe que sabia tanto quando entrou para a 1ª classe que odiava a escola e nunca se conseguiu integrar, ainda hoje é um jovem estranho porque esteve sempre de parte!
Da mesma forma que quando me dizem que o meu filho tem que comer bolachas e tem que comer isto ou aquilo eu me chateio porque ele tem toda a vida para comer bolachas... E têm toda a vida para aprender inglês e saber escrever...
Toda a gente só quer ter filhos sobredotados, ninguém quer ser mãe/pai dos "normais", dos que brincam e dos que têm tempo para aprender tudo o que o mundo tem para ensinar!
Concordo totalmente com o que dizes.
Completamente.
Eu não entendo estas ideias de se ter filhos hiper-dotados, que fazem mais que o do vizinho do lado.
Acho que não se deixam as crianças passar pelas fases que precisam de passar para crescerem e serem felizes. Não se deixam ser crianças, não se permite!
Eles têm uma vida pela frente para terem responsabilidades e afazeres...
Parece-me muitas vezes que os pais depositam nos filhos objectivos que são seus. Objectivos, ideais, frustrações...
E nem se apercebem do quão injusto isso é, do quanto lhes estão a roubar.
Eu também quero muito que o meu filho viva as coisas ao seu ritmo, que aprenda quando tiver que aprender, que seja curioso e criativo, que saiba inventar e BRINCAR.
Quero muito que seja feliz ao seu ritmo.
Beijinho em vocês*
As pessoas acham o máximo porque nunca tiveram um sobredotado de verdade, que isso sim é dificil. É tão bom sujar-se, brincar na rua, por isso adoro viver onde vivo, e ir para a casa da minha sogra e andarem á vontade na rua, porque na verdade vamos para a rua, porque raramente entramos em casa, até temos um tanque á antiga onde damos grandes mergulhos no verão, e é tão bom.
Beijinhos
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