Levanto-me cedo e a minha casa está silenciosa. O meu marido deixa-se ficar na cama. Desconfio que é menino de ali ficar a manhã toda, numa desforra por hoje não ter aqui a nossa pequena cria saltitante a pedinchar-lhe uma brincadeira qualquer a esta hora da manhã.
Bolachinha lindo da mãe foi passar o fim de semana aos avós, em terras transmontanas.
E eu aproveito para tomar banho nas minhas calmas, arranjar-me nas minhas calmas, tomar o pequeno almoço nas minhas calmas. E melhor ainda: em silêncio. E sim, assumo: sabe-me bem. Mas estou mortinha que ele venha. O riso dele faz-me falta...
Olho para o relógio e vejo que ainda faltam quase 20 minutos para a hora do metro. Apesar do caminho ser curto, decido ir andando, nas minhas calmas.
Não passa nenhum carro na rua. Só se ouvem passarinhos. Muitos passarinhos felizes. Que sorte eles têm - penso.
De repente ouço pessoas a falar. Dá-me ideia de ser um grupo grande de pessoas. Vozes agudas, esganiçadas, que me arrepiam os tímpanos destes meus ouvidos ainda habituados apenas ao silêncio.
Chego à estação de metro e, acabou-se o silêncio... Foi como que acordar de um sonho bom. A minha calma evapora-se quando vejo um grupo enooooorme de gente. Para cima de 50 pessoas. Só mulherio. Todas a falar ao mesmo tempo. Consigo ler-lhes nas camisolas: "Corrida da Mulher". E desculpem-me gente, eu admiro a vossa iniciativa, mas também estava a admirar bastante a calmaria da minha manhã...
Entro com aquelas vozes todas num metro que já vinha atolado de outras tantas. Ficamos logo tipo sardinhas enlatadas.
Espectáculo! Em vez da minha habitual viagem-relax, confortavelmente alapada à janela, ali estava eu, de pé, no meio delas.
Falam cada vez mais alto para se conseguirem ouvir umas às outras.
No meio da gritaria, consigo perceber que o José Cid e a Liliane Marise vão lá estar a animar a malta.
Mandam piadas apimentadas.
Riem-se alto.
Vejo dois velhos carrancudos a abanar a cabeça, incrédulos, como que a pensar que o mundo está perdido.
Resumindo:
Já cheguei ao trabalho.
Dói-me a cabeça.
Vou tomar um comprimido.